MANEIO REPRODUTIVO EM BOVINOS DE CARNE

10-02-2010 22:01

 

Esta pequena dissertação têm o interesse de divulgar o que se efectua em algumas explorações, mostrar prós e contras de alguns protocolos, chamar a atenção para os baixos índices reprodutivos das explorações de vacas de carne e informar de muita coisa que se pode fazer para melhorar a fertilidade das nossas explorações.

O maneio reprodutivo de uma vacada pode assentar em muitos factores, sendo por isso muito importante que se determine os principais objectivos de acordo com os interesses do proprietário.

Cada exploração é única. Um maneio reprodutivo com bons resultados numa exploração pode ser um fracasso noutra. Como tal, o maneio reprodutivo a instituir numa exploração tem de ser adaptado aos interesses do proprietário e características da propriedade, sendo que cada pormenor é decisivo.

 

O primeiro passo consiste na identificação da situação reprodutiva da exploração. Explorações em que os registos reprodutivos são pela primeira vez analisados apresentam, em média, 65% de fertilidade, querendo isto dizer que por ano em 100 vacas há 65 bezerros. Quando confrontados com estes valores a maioria dos produtores nega que seja essa a realidade da sua exploração até que estudam os seus dados.

 

O que se deve exigir, e que é naturalmente possível, é um vitelo por ano por vaca, isto é, 100 vacas devem parir 100 vitelos. Para tal os intervalos entre partos têm de ser de 12 meses. O que é bem diferente de uma vaca parir todos os anos, pois se o parto for em Janeiro de 2009 e em Dezembro de 2010, pariu nos dois anos mas com um intervalo entre partos de 23 meses e se assim continuar ao fim de 12 anos tem, no máximo, 5 vitelos, em vez dos possíveis 10. Faz que pensar não é verdade?

Normalmente também se pretende:

·         Gastar o mínimo a alimentar os vitelos.

·         Desmamar os vitelos por volta dos 6 meses.

·         Bons vitelos para vender ou engordar.

·         Vacas sempre com boas condições corporais (CC acima de 3 numa classificação de 1 a 5).

·         O menor número de mortes.

·         Vitelos para vender quando há poucos no mercado.

·         Vender os vitelos ao melhor preço do ano.

Para se conseguir o que se pretende, exige-se PROGRAMAÇÃO. Tal e qual como se faz quando se semeia trigo, aveia ou uma pastagem permanente ou quando se coloca adubo ou pesticidas. Impensável sem programação!

Faz alguma programação na sua vacada de carne? Se a faz, com que objectivos? Têm controlado os resultados? Questione-se para poder melhorar e estude os dados da sua vacada para saber se tem bons resultados ou não.

Pior que ter maus resultados, é tê-los e não saber. Nunca irá fazer nada para alterar essa situação.

É muito importante o registo e estudo dos dados, como:

·         Número de vitelos por ano.

·         A média do intervalo entre partos da vacada.

·         O preço dos vitelos ao longo do ano.

O rendimento da exploração depende da quantidade e qualidade dos vitelos que se consegue por ano. Para isso é necessária uma boa genética e um bom maneio reprodutivo e alimentar.

Neste artigo vamo-nos debruçar sobre diferentes maneios reprodutivos e na importância do controlo reprodutivo.

 

MANEIO REPRODUTIVO EM BOVINOS DE CARNE

EM SEMI-EXTENSIVO NO ALENTEJO

 

 

 

         Neste exemplo, em que os touros andam o ano inteiro com as vacas, destaca-se o facto de esta exploração ter uma fertilidade de 61,3% tendo em conta as novilhas com mais de 24 meses de idade, que foram colocadas ao touro com 15 meses, logo 61 vitelos por 100 vacas, longe dos possíveis 100 vitelos por ano.

De ressaltar que num efectivo em que o touro ande sempre com as vacas não é possível efectuar controlos reprodutivos efectivos. Isto é, em que se faça diagnóstico de gestação e se tenha a certeza que as vacas não gestantes estejam não gestantes, pela impossibilidade de saber se as vacas estão prenhas entre 1º e os 28º dias após cobrição e por tal também não se pode instituir qualquer tratamento de sincronização de cio para aumento da fertilidade.

 

É verdade que não se têm custos com diagnóstico de gestação, sincronização de cios e separação de touros, mas o que são estes custos quando comparados com uma fertilidade de 61%, de não ter lotes uniformes de vitelos e quando valem mais €, de ter que vigiar partos todo o ano, de ter vitelos a mamarem nas vacas em pleno verão, de não conseguir gerir lotes de vacas gestantes e não gestantes?

Para além de que é sempre difícil efectuar um programa vacinal e uma suplementação alimentar adequada a todos os animais, já que as vacas estão em diferentes fazes reprodutivas e de lactação e os vitelos têm idades muito díspares.

Para o produtor também é difícil ter noção se as suas vacas parem de 12 em 12 meses, pois há sempre vacas a parir. Se retirarmos os touros no fim de uma época determinada de cobrição, é fácil saber as vacas que não pariram no fim da época de partos. Então, com facilidade se sabe a fertilidade do efectivo, com uma margem de erro pequena, que é determinar o número de vitelos no ano e o número de vacas que tinham idade para parir.Entenda-se por fertilidade o nº de vitelos por ano face às vacas presentes na exploração com idade para parir:

     FERTILIDADE = Nº VITELOS X 100 = %            exp:  ( 105vitelos X 100 = 70% )

Nº VACAS                                             150 vacas

  

 

 

 Neste protocolo reprodutivo vamos ter 3 meses sem partos e, em Maio, podemos saber as vacas que pariram de Agosto do outro ano ao fim de Abril e detectar as que não pariram, podendo fazer alguma coisa a estas, como: confirmar se estão prenhas ou não; efectuar sincronização de cio e inseminação artificial ou simplesmente vendê-las numa altura em que estão gordas pela pastagem. Logo, já se consegue detectar, com facilidade, as vacas que não parem. Mas atenção, sempre tarde, pois só ao fim de um ano é que vamos detectar as vacas que não pariram.

O efeito macho é conseguido por se ter retirado o touro das vacas durante 3 meses e depois os ter colocado de repente, levando a uma sincronização de cios das vacas não gestantes.

Algo que também não se consegue é evitar que os vitelos mamem nas vacas no Verão, pois haverá sempre vacas a parir de Fevereiro ao fim de Abril. Nestes casos, aconselhamos sempre o desmame precoce para bem do vitelo, da vaca e do agricultor pois, assim não vai ter vacas e vitelos magros ou gastar dinheiro a alimentar à “mão” vacas a amamentar, que têm uma exigência alimentar muito maior que uma vaca seca. Mas atenção, o desmame antes dos 4 meses não é recomendado, pois leva a um atraso no crescimento que será irrecuperável.

 

Devido aos contras destes 2 protocolos reprodutivos, passamos a apresentar 2 programas que se adaptam melhor às exigências de mercado e às condições ambientais do nosso Alentejo.

Tudo na vida tem prós e contras, por isso, há que escolher e trabalhar no método que mais se ajuste, sempre com registos e estudo dos dados obtidos antes e depois das alterações instituídas.

 

A época de partos/cobrição concentrada pode ser em qualquer altura do ano, mas tem de se ter sempre em atenção a época do ano de maior disponibilidade de alimento, a condição corporal das vacas ao parto e cobrição, o preço dos vitelos ao desmame e à eventualidade de, num ano de más condições climatéricas,poder ter que se prolongar um pouco essa época de cobrições.

Algo que também não nos podemos descurar é a qualidade dos touros, por isso, estes devem ser sempre avaliados antes da época de cobrição.

O Exame Andrológico consiste na avaliação dos touros verificando:

·         Conformação.

·         Aprumos.

·         Líbido.

·         Anatomia dos órgãos reprodutivos internos e externos.

·         Recolha e avaliação dos espermatozóides.

 

PROGRAMA COM ÉPOCA DE PARTOS DE

5 MESES:

 

Quando não se pretende uma grande concentração nos partos é fácil conseguir uma época de partos de 5 meses no ano sem necessidade de grandes investimentos. Será apenas necessário o diagnóstico de gestação ao fim da época de cobrição para se saber quais as vacas não gestantes e a avaliação dos touros antes da época de cobrição.

Com a concentração dos partos consegue-se controlar a fertilidade do efectivo; vender as vacas não gestantes quando estão gordas evitando que permaneçam mais tempo na exploração a dar prejuízo; um maior número de vitelos por lote e homogéneos.

Atenção que com este programa reprodutivo consegue-se ter fertilidade de 90% em vez dos 60 a 70% duma vacada com reprodução convencional em que não se efectua nenhum controlo.

 

         Este programa tem o contra de ter os vitelos para venda no fim da Primavera e Verão, altura em que há mais oferta no mercado. As vacas vão estar a amamentar os vitelos durante o calor e a comer pasto, o que exige para manter a condição corporal dos animais, efectuar suplementação alimentar às vacas e colocar dispersores de farinha no campo para os vitelos se manterem bons. O desmame precoce é essencial no Verão, de modo a que as vacas não emagreçam muito e porque é mais barato alimentar e engordar vitelos que vacas.

Apresento a seguir o exemplo de uma exploração de vacas Mertolengas com este programa:

 

 

 De ressaltar que se conseguiu uma fertilidade de 90% em 2009, com partos em 5 meses e com lotes grandes e homogéneos de vitelos, com todas as vantagens associadas a esse facto.

 

PROGRAMA COM ÉPOCA DE PARTOS DE

3 MESES:

 

Neste programa os partos ocorrem em 3 meses do ano. Para tal é necessário o diagnóstico de gestação no fim da época de cobrição (para identificar as vacas não gestantes), avaliação dos touros antes da época de cobrição e sincronização dos cios com recuso a inseminação artificial em tempo fixo a cerca de 65% das vacas do efectivo no início da época de cobrição.

Com a concentração dos partos consegue-se verificar a fertilidade do efectivo com facilidade, ter a vigilância dos partos concentrada em 3 meses no ano, como a colocação de brincos só nesta altura, fora do verão evitando assim problemas de miíases, vender as vacas não gestantes quando estas estão gordas e sem que permaneçam muito tempo na exploração a dar prejuízo, um maior número de vitelos por lote a vender e com vitelos homogéneos, para além de se poder programar as melhores épocas para a vacinação e desparasitação tendo em conta o tempo de gestação da vacada.

Com este programa reprodutivo consegue-se obter índice de fertilidade de 95% em vez dos 60 a 70% de uma vacada com reprodução convencional em que não se efectua nenhum controlo.

 

 

 Todo este maneio é fácil de efectuar no campo, com as estruturas que são normais existirem nos dias de hoje (currais e manga). Seguem-se algumas imagens de uma exploração em 2009:

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2010:

 

Resultado da sincronização de 2009:

 IATF em 50 vacas mertolengas:

Bezerros cruzado de Aberdeen Angus resultado de inseminação em 12-2010:

6-9-2011

2-12-2011

3-2-2012

10-4-2012

25-5-2012

 

Perante isto, é muito importante registar e estudar os dados das nossas explorações, tendo em conta todos os gastos e receitas, não menosprezando o número de vitelos ano pelo número de vacas do efectivo e se vendemos os vitelos quando mais rendem.

O único que dá rendimento num efectivo bovino de carne são os vitelos e como tal devemos focar-nos nestes, tentando produzi-los com o menor custo, em maior número e de melhor qualidade.

Perante isto estudem os custos/benefícios, programem as vossas explorações e se necessitarem de apoio, nós estamos cá para isso.

 

Este artigo foi baseado no resumo da palestra de Maneio Reprodutivo de Bovinos de Carne do Congresso organizado pela Clínica Veterinária de Sto. Onofre com a colaboração da Pfizer Animal em 27-2-2010.

Para qualquer esclarecimento adicional, não hesite em contactar nossa equipa. Teremos todo o gosto em esclarecer qualquer questão.

 

Elvas 10 de Fevereiro de 2010

António José Carola Espiguinha Cortes

      Tef. 963013099 - mve@sapo.pt

 

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